terça-feira, 11 de maio de 2010

Entrevista a uma Imigrante de Leste - Alliona Vulpe (Moldávia)

Entrevista – Aliona Vulpe (Imigrante de Leste)

Sexo: Feminino
Nacionalidade: Dupla – Moldava e Portuguesa
Naturalidade: Moldávia

Introdução Entrevista
(Inês)
 Esta entrevista é no âmbito de um projecto que nós estamos a desenvolver na disciplina de área de projecto, que visa estudar a adaptação dos emigrantes de leste ao nosso país.

(Andreia)
Entrevista
 Pode nos contar como era o dia-a-dia no seu país?
 (Aliona) Ah (risos), normalmente, eu trabalhava na universidade e dependia do horário que eu tinha, às vezes mais sobre a manhã, outras vezes o dia todo, mas o dia todo significa até às 15 horas, era o máximo que eu tinha. Mas normalmente, de manhã era das 8h30 ao 12h/13h. E à tarde sempre tínhamos o tempo livre, mas livre significava trabalhar na biblioteca ou ajudar os alunos com dificuldades, aulas práticas, etc.

Era professora não era?
 (Aliona) Sim


E como é que é essa profissão lá? Quais são as diferenças mais marcantes?
 (Aliona) Lá é uma boa profissão. Eu estudei e exercitei, agora aqui isso não acontece, na grande maioria das vezes.

Era professora de?
 (Aliona) Professora de Psicologia na Universidade Pedagógica e agora quando cheguei cá o mais difícil para mim foi começar a trabalhar porque eu não queria trabalhar fora de casa sem ser na profissão que eu tinha, então fiquei quatro ou cinco meses em casa, depois pensava assim: “Trabalhar nas limpezas? Eu?! Nunca!”, “Trabalhar ali? Eu nunca.” Mas então, comecei a sentir falta de dinheiro, portanto comecei a trabalhar cá e não escolhi o trabalho. (risos)

Portanto há muita diferença entre o salário cá e lá, o custo de vida…?
 (Aliona) Eu cheguei há nove anos atrás, há uma grande diferença sim, por exemplo, o meu marido aquilo que ele ganhou durante dois anos cá compramos um T2 lá, agora o preço do apartamento que eu comprei naquela altura hoje em dia é 10 vezes mais caro, ou seja, hoje, trabalhar cá e juntar para comprar lá, não compro nada, há uns anos atrás o que ganhávamos cá dava para comprar muita coisa lá, hoje em dia já não.

Então e como é que era em termos de habitação, como é que era a casa lá?
 (Aliona) Pronto, o meu marido comprou casa, e compramos uma casa maior do que a que tínhamos, só mudamos de casa e ele voltou para ganhar mais um pouco para fazer obras em casa, já estava na altura do verão, e nós pensámos, juntamente com o filho, já está no verão podíamos ir lá fazer umas férias, passear, etc. Então ele pediu uma licença de habitação, pronto e passou o verão, ficámos mais um ano. Assim não deu para gozar a casa, pois só lá estivemos dois meses e depois quando chegamos cá claro que o meu marido arranjou aquilo que ele pôde, claro não foi uma casa enorme.

Qual é que era a profissão dele lá?
 (Aliona) O meu marido trabalhava num banco, andava de avião a transportar dinheiro entre vários países. Chegámos cá a nossa profissão já não valia, até que tentei fazer equivalência mas não deu, é muito caro e não valia a pena porque não ia conseguir arranjar trabalho na minha área.

O que é que precisava para lhe darem a equivalência?
 (Aliona) Fui á embaixada para me traduzirem o meu diploma, na escola superior de educação, pediram-me mais a tradução do meu programa de estudo, mas o meu programa tem setenta páginas e cada página custa 40€ para fazer a tradução agora precisava de 3000€ só para fazer a tradução do programa. Por enquanto eu não tenho esse dinheiro portanto fica em stand-by.

Porque é que escolheu Portugal, especificamente a cidade de Santarém?
 (Aliona) Nós chegámos cá por causa do meu marido, nós viemos para cá porque Portugal foi o país que tinha as “portas abertas” e o que punha menos obstáculos. Pois porque naquela altura, as obras é que davam dinheiro, construía-se muito em Portugal, e foi por isso, pelo menos não foi uma escolha, calhou, aconteceu.

 Mas foi o primeiro destino para onde veio?
 (Aliona) Sim

Vieram mesmo directamente para Santarém?
 (Aliona) Primeiro chegou um amigo do meu marido, ele disse que trabalhava na construção do Feira Nova. Depois viemos nós.

O seu marido já conhecia Portugal, antes de virem viver para cá?
 (Aliona) Não, a única coisa que conhecíamos de Portugal era que jogavam bom futebol. (risos) não sabíamos mais nada, nada, nada.

Portugal era o desconhecido? (risos)
 (Aliona) (risos) sim, assim como a Moldávia é para vocês.

Como é que comemoram as datas festivas? Por exemplo o natal, a Páscoa, etc. Há alguma semelhança?
 (Aliona) Os meus pais foram comunistas, então eles não ligavam nada à religião, às festas, portanto nós nunca festejávamos em casa, depois de casar, como nós moramos sempre na cidade, na capital da Moldávia, e lá os jovens não ligam muito às festas religiosas, mas nas aldeias sim. O mais importante é o aniversario, a pascoa e o natal não. Agora quando chegámos a Portugal, claro que festejamos o natal, mais do que outra coisa, porque aqui… enfim (risos), a pascoa passa despercebida. O nosso natal é dia 6 de Janeiro, o ano novo é dia 14. No inicio festejamos todas as festas, as nossas e as portuguesas, depois a pouco e pouco, e agora principalmente, só festejamos o natal. Às vezes os nossos amigos é que se lembram e ligam-nos, porque lá quando é natal ou assim ninguém trabalha, não se lava a roupa, nada.

Quais são os maiores contrastes entre o seu país e Portugal (língua, vestuário, dia-a-dia)?
 (Aliona) A origem da língua é mesma, é latina, a letra escrita é igual. E eu estudei na universidade sempre em russo. Ortografia russa, tudo russo, mas não foi nada difícil. O problema é que no trabalho que exerço cá nunca falo, estou sempre fechada. Assim não avanço muito. Agora eu noto que nos primeiros seis/oito meses aquilo que aprendi a este nível, não avancei muito.

E o vestuário é muito diferente?
 (Aliona) Quando eu cheguei a Portugal era muito diferente, nós chegámos a Portugal com casacos de pele e saltos altos, mini-saias, com cabelo muito curtinho branco, e apareceram as perguntas: “então, só as prostitutas é que andam com essas mini-saias!” e “o que é esse cabelo, parece que viste um bicho?”, são coisas que tive mesmo que mudar, também me surpreendi bastante porque cá só via mulheres de cabelo comprido, um pouco fortes, e um pouco desleixadas em termos de aspecto, tudo muito diferente de lá na Moldávia porque dávamos muito valor ao aspecto exterior, pouco para comer mas muito para vestir, para sair na rua e apresentar-se. Agora não tenho essas roupas e até já perdi o gosto por as vestir, estou muito diferente e muito mais “portuguesa”.
 (Aliona) Eu nunca fui a uma igreja, nem cá nem lá, mas as roupas festivas são as mesmas nestas ocasiões, pois lá andam sempre muito arranjadas, e quando não se tem dinheiro para os vestidos, há lojas de aluguer que são muito comuns lá. A única vez que entrei numa igreja foi quando casei com o meu marido. As missas são muito cansativas (sempre em pé), os padres estão sempre virados para o altar porque eles falam com Deus.


Relativamente à gastronomia…
 (Aliona) Eu nunca me habituei, nem o meu marido, continuamos a comer comida moldava, o meu filho é que faz birras, pois gosta muito mais da comida portuguesa e prefere comer na escola a comer o que eu cozinho. Eu não mudei em relação à cozinha. Quando não tenho alguns produtos os meus amigos mandam-me de lá ou vamos àquelas lojas russas que existem cá.

E relativamente a hábitos de cultura, etc?
 (Aliona) O principal hábito lá era ir a cafés com os amigos, passear bastante, aqui não tenho amigos e nunca arranjei, nunca me integrei na sociedade portuguesa, apenas me habituei.

E o sistema de saúde? Não sei se já o utilizaram alguma vez…
 (Aliona) Nós aguentamos sempre quando temos algum problema de saúde, só vamos mesmo em último caso. Aqui é muito caro e há filas enormes que eu não tenho paciência para espera. Ou seja, só vou lá quando preciso de algum atestado médico, ou para a carta de condução ou assim.

Tem mais algum aspecto, alguma diferença que ache muito diferente?
 (Aliona) Sim, há! É assim, no nosso país todos ganham igual ou menos, mas têm uma vida muito diferente dos portugueses. Nunca se pensa no amanha apenas se vive o momento de hoje. Por exemplo, nos fomos com os nossos amigos jantar fora no aniversário do meu marido, éramos 15 pessoas, e pagámos 500€, eu fiquei espantada e eles ficaram muito calmos, porque eles trabalham toda a semana e ao fim-de-semana gastam tudo, segunda-feira é uma nova vida! Aqui não, aqui pensa-se sempre no amanha, nos filhos, no dinheiro na conta. Sei lá, onde será melhor? Lá vive-se cada dia com mais intensidade, aqui… nós mudamos também, e as minhas amigas de lá também já notaram as diferenças, agora perguntam-me: “então? Estás a pensar 20 vezes antes de comprares uma camisa?!” e eu respondo sim, porque lá em Portugal eu podia comprar 20 camisas iguais a estas. Esta é a maior diferença que eu encontro – lá vive-se cada dia, cá pensa-se no futuro.

 E o que é que acha mais semelhante entre o seu país e cá?
 (Aliona) A hospitalidade dos portugueses, é muito grande. A nossa também. Mas a nossa é por causa de querer conhecer aquilo que é novo.

Quais foram as maiores dificuldades que teve em adaptar-se cá?
 (Aliona) Ainda me estou a adaptar, ainda não me integrei, apenas estou habituada.

Mas arrepende-se de ter emigrado para Portugal?
 (Aliona) Sinceramente sim. (risos) por um lado não penso nisso porque o meu filho tem de acabar a escola, mas por outro nunca penso ficar cá para sempre.

 Já se sentiu vítima de discriminação?
 (Aliona) Muitas vezes. Quando entro numa loja e quero comprar alguma coisa as pessoas olham sempre de maneira diferente e começam logo a murmurar alguma coisa. Mesmo a conduzir o carro. Eu nunca saio de casa sem um batom ou assim, e talvez por aí, e principalmente as mulheres, são as que criticam mais.

 Acha que esta cidade tanto tem de hospitalismo como de recriminação?
 (Aliona) Não, eu não posso falar no geral, porque há quem secalhar já passou por isso. Porque em Portugal há muitos emigrantes. Por exemplo há pessoas que são falsas… (risos), já fui vítima, mas não sempre.

 Conte-nos um dia-a-dia em Portugal?
 (Aliona) (risos) levanto-me de manha, às sete e tal, começo a trabalhar, nunca tenho calma, os dias passam por vezes rápido demais. Depois é preparar o jantar, etc, e enfim, acabou o dia. Depois levanto-me sempre cansada de manha! O fim-de-semana passa despercebido… vou às compras ao supermercado, e nada mais.

 O salário é recompensador?
 (Aliona) (Pensativa)… Portugal é Portugal, e não pode dar mais. Eu recebo em Portugal aquilo que Portugal pode dar.

À chegada a Portugal quais foram os principais obstáculos (legais, etc)?
 (Aliona) Não houve muitos. Ao contrario de lá, aqui recebemos abono de família, aqui nunca pedimos, foi uma coisa que recebemos sem saber e ficamos admirados. Agora já temos o cartão de cidadão e essas coisas.

Acha que os emigrantes de leste têm apoios suficientes para a sua integração?
 (Aliona) Em geral, sim. Pois quem quer tem, mas nós nunca pedimos. Nunca andámos a procurar ajuda, nem amigos, mas quem anda à procura encontra.

E em termos de actividades culturais?
 (Aliona) Por exemplo, eu gostava de ir a um teatro, mesmo que português, mas há muito pouco cá em Santarém para ver, para nos divertir-mos. Agora eu nem sei onde é que os portugueses cá em Santarém se divertem, porque não tenho informação, eu tenho tempo para ver um espectáculo, mas não sei onde.

Por norma vêem muitos espectáculos lá na Moldávia?
 (Aliona) Sempre! Lá sempre tive uma vida cultural muito activa. Aqui o fim-de-semana passa e eu nem consigo descansar nem divertir-me, lá não havia nenhum espectáculo ao qual eu não fosse. Mas a diferença é que eu lá morava na capital e cá não.

 Mesmo assim já somos uma cidade um pouco desenvolvida. Acha que já devíamos ter uma parte cultural mais activa e divulgada?
 (Aliona) Sim, mesmo teatros pagos! Eu gostava de ver. Acho que têm de haver uma diferença entre o fim-de-semana e o dia-a-dia.

E o que esperava encontrar em portugal? Quais eram as expectativas em relação ao nosso país?
 (Aliona) (risos) é uma pergunta complicada! Porque eu não vim à procura de nada, vim apenas para estar ao pé do meu marido. Quando comecei a trabalhar pedi um contrato de trabalho, e o meu patrão disse-me que eu não estava cá para trabalhar mas sim para dormir com o meu marido! (certa tensão) portanto eu cheguei cá, apenas para conhecer portugal, sem esperar nada. Sempre fui à procura da novidade.



 Quais são os seus sonhos e objectivos pessoais e profissionais?
 (Aliona) Gostava mesmo de tirar um curso que desse para ganhar dinheiro. Porque às vezes não vale a pena ser um curso muito bom, mas um com boa saída. (risos) gostava de mudar de casa, de carro, de ter mais amigos, de poder sair mais… (pensativa). Eu quase sempre estou insatisfeita, mas não faço nada para mudar.

Então, pretende ficar em Portugal?
 (Aliona) Por enquanto, mas não para sempre.

 Porquê?
 (Aliona) A minha vida presente é formada só de lembranças, a minha família está lá, lembro me sempre de coisas antigas, do passado, lá na Moldávia. (lacrimejou)

E se portugal, por exemplo, em termos culturais, tivesse uma grande viragem? E se a sua vida mudasse? Se Santarém passasse a ser uma cidade mais activa?
 (Aliona) Tu achas que eu vou viver 200 anos? (risos e pensativa) eu penso que eu tenho mais 10 ou 20 anos de trabalho. Eu semrpe fui habituada a um outro nível de vida, por exemplo eu lá so tinha amigas da universidade, uma classe social mais alta, e o meu marido também, no banco. Era outro ambiente. Em Portugal não encontrei nem pessoas daquela área nem daquele nível, por isso é que eu nunca me habituei. Daí, eu penso que nunca vou chegar àquele ponto de ficar satisfeita ou pelo menos de me sentir bem. Estou habituada, aguento. Mas não penso muito nisso.

Então e acha que ainda se justifica viver em Portugal?
 (Aliona) Nestes tempos, já não se justifica. Lá já se ganha igual ou mais.

A entrevista chegou ao fim, agradecemos desde já todo o apoio e disponibilidade. Muito Obrigada!

Um comentário:

  1. Gostei muito de ler a entrevista, porém fiquei com a questão na mente: Se lá, na Moldávia, o nível de vida era tão melhor, e actualmente é, porque imigraram para Portugal ou porque não regressam de volta ao seu país? Ou seja, dá-me a impressão não ter a questão económica a causa da saída da Moldávia...

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